5 de abril de 2010

desventura

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Sim, afligia muito querer e não ter. Ou não querer e ter. Ou não querer e não ter. Ou querer e ter. Ou qualquer outra enfim dessas combinações entre os quereres e os teres de cada um.


Caio Fernando Abreu - Depois de Agosto

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24 de fevereiro de 2010

3ª do singular

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P. vai fazer 20 anos e está precisando de uma aspirina existencial. Expliquei a ela que essas crises são coisas pelas quais todos passam - apesar de odiar essas frases clichês - e que ela deveria sair para se divertir ao invés de ficar em casa se embriagando com suco de goiaba, Beatles e comédias românticas. O problema é que P. não gosta de conselhos, dicas ou qualquer coisa que envolva ou desvende sua fraqueza. Apesar de demonstrar o contrário, P. é sensível às pessoas, aos seus sorrisos forçados, suas alegrias fingidas e suas formas nocivas de amar. Ela nunca teve muitos amigos. Já houve pessoas que disseram a ela que era especial e algumas poucas que demonstraram, sem dizer, que ela realmente é. Já teve muitas decepções, suas primeiras melhores amigas foram as primeiras a abrirem seus olhos em relação à confiança que ela depositava nas pessoas. Mas P. cresceu e conheceu novas amigas que criaram raízes em seu coração, apesar de ainda ter muita dificuldade em confiar em alguém. Adora café, sushi de salmão e chocolate branco. Odeia sorvete de abacaxi. É observadora e distraída. Gosta de ir ao cinema sozinha e cozinhar para si mesma. Tem ciúmes estranhos e é muito autocrítica. É sarcástica e não sabe mentir. Fala demais, chora muito e reclama sempre. Assiste uma meia dúzia de filmes dezenas de vezes e adora repetir as falas dos personagens. Gosta de bandas que ninguém conhece e adora a trilha de Pride & Prejudice. Tem medo de gostar das pessoas e prefere expressar sentimentos escrevendo ao invés de falar. É orgulhosa, mas também capaz de ir atrás de alguém quando sente que vai perdê-la. Tem um blog que usa para publicar algumas coisas que ela considera bobagens, mas que, uma vez ou outra, agradam a alguém que as lê. Está aprendendo a beber cerveja e gosta do cheiro de cigarros que a fazem lembrar de festa. Adora água com gás. Pretende conhecer Buenos Aires e sonha em morar na Itália. Tenta tocar violão. Seus amigos dizem que é anti-social e mal humorada - e ela se orgulha de conservar essas amizades, há anos, mesmo assim. Quando gosta de verdade, é capaz de sacrificar seus próprios desejos e não mede esforços para fazer esse alguém feliz. P. me disse que daqui pra frente vai tentar ser feliz do seu jeito e acha que a aspirina que está precisando tanto já deve estar chegando por aí. E eu acredito, pois se tem uma coisa que ela faz melhor que brigadeiro de panela é recomeçar.

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17 de fevereiro de 2010

entre sorvetes e queijo parmesão

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"o problema básico do coração ficar perto do estômago é que isso nos dá a falsa impressão de que enchendo um vamos conseguir acabar com o vazio do outro."


P.S.: muito obrigada pela conversa-companhia.


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16 de fevereiro de 2010

summer days

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Summer romances end for all king of reasons. But when all is said and done, they have one thing in common: they are shooting stars, a spectacular moment of light in the heavens, a fleeting glimpse of eternity. And an a flash, they’re gone.


Nicholas Sparks — The Notebook



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15 de fevereiro de 2010

a procura/à procura

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Em algum momento, você vai ter que parar. Não parar – nunca – é um artifício interessante para não ter que pensar. Pensar dói. Naturalmente, evitamos o sofrimento. Até o dia em que o subterfúgio se torna mais doloroso do que a verdade implícita.

Pare. Respire. Ok, você não vai se matar. Mas dá medo. Você telefona, toma banho, toca violão, bebe água, cozinha, liga a tv sem som, tenta dormir. Dormir é a parte mais difícil. Para dormir é preciso parar de pensar. E você não quer mais fazer isso. Você não pode...

Conversar talvez não seja a melhor saída. É difícil explicar o que você não entende. Pare. Pense. Não, é melhor não sair hoje. Não, eu não quero gelo e limão. Uma água com gás, por favor.

Você sabe mesmo para onde está indo? Ok. Então, pare, pense, pense, pense, pense...

Em algum momento.



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4 de janeiro de 2010

questões fundamentais da vida, do universo e tudo o mais

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- Porque as pessoas não podem simplesmente aprender a viver juntas em paz e harmonia? - disse Arthur.
Ford deu uma gargalhada muito alta.
- Quarenta e dois! - disse, com um sorriso muito malicioso. - Não, não serve. Deixa pra lá.



Douglas Adams - The restaurant at the end of the Universe, pag. 84.



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28 de dezembro de 2009

ignorância

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Conhecimento não é nada diante da determinação humana.
Entenda determinação como teimosia. Você sabe que é errado. Empiricamente e tecnicamente, você sabe que aquilo não deve ser feito. Você já passou por isso antes, conhece as conseqüencias. No entanto, você faz.

A diferença entre aquele que sabe e o ignorante é que aquele que não sabe não sente culpa. O superego dele não vai entrar em cena, não vai dizer como aquilo é prejudicial e não vai tentar te demover dessa idéia. Aquele que detém o conhecimento vive em uma guerra interna permanente entre os seus desejos e sua consciência.

Mecanismo de defesa da vez: racionalização. Dezenas de argumentos instintivamente formulados para tentar justificar o injustificável. A busca incessante por convencer a si mesmo de que aquilo é válido ou necessário ou inofensivo.

Você sabe que é errado.
Mas vale a pena[?].

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1 de novembro de 2009

sobre a maldade e o perdão

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Deve ser a tal da maturidade. Sair da bolha parece ser capaz de provocar algum surto de crescimento pessoal...

Espanto-me com a minha paciência, calma e capacidade de perdoar. Aceito tantas coisas inaceitáveis. Entendo, compreendo. Um sentimento de resignação quase patológico. Uma crença quase inabalável nas pessoas e na bondade humana(?).

Talvez eu esteja apenas sendo tola. Cerrei os despropósitos da vida nas grades do meu silêncio. E nessa ciranda de mágoas silenciosas, vou seguindo com o sorriso habitual e a cordialidade que a boa convivência entre os pares exige.

Ao contrário, porém, talvez devesse gritar, contar, discordar, não aceitar. Talvez devesse aprender a usar ao menos um pouco da maldade humana com a qual convivi. Talvez devesse deixar de esperar, pacientemente, por uma manhã em que as verdades sejam reveladas e o imperfeito seja desfeito. Talvez eu devesse sentir raiva, exigir explicações, cortar relações...


Talvez eu esteja apaixonada. E, então, nada disso importa.


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9 de outubro de 2009

prescrição

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É fácil me fazer feliz.

Me presenteie com um pacote de café com um laço de fita amarela. Me surpreenda com um pão de mel e um bilhete deixados na mesa da minha sala - coisas simples que fazem meu coração sorrir.

Me convide pra ver um filme da década de 50. Converse comigo durante toda a madrugada, os assuntos mais sérios ou mais irresponsavelmente inúteis. Me ensine a jogar poker, usando como fichas o dinheiro da comissão de formatura...

Gaste seu tempo comigo. Viva comigo, cada momento. Cada tarde regada a café forte e doce. Cada nascer do sol depois de uma desgastante e interminável discussão sobre o que eu quero da vida e de nós. Cada festa estranha, movida a vodka, música alta e fritas com queijo.

Me acompanhe até em casa, em silêncio. Me ouça cantarolar Tom Jobim e ache graça de como eu me divirto contando anedotas sem final feliz. Fique do meu lado quando eu estiver triste e cansada. E me abrace quando eu não for forte o suficiente e começar a chorar.

E depois de tudo isso, olhe nos meus olhos e diga como eu sou tudo aquilo que você nunca quis.


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15 de setembro de 2009

sitting, waiting, wishing

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Ele disse que eu não sei o que quero. E, embora tenha discordado veementemente, sou obrigada a concordar que, em partes, ele tem razão.

Admito minha volubilidade. Apenas me deixo guiar pelo vento que sopra em cada momento, me levando para direções diferentes a cada dia. Sem me prender a (quase) nada, vou vivendo e aprendendo a viver, de acordo com o que a própria vida me oferece.

Desisti de tentar moldar meu futuro conforme meus devaneios juvenis de amores perfeitos e amizades eternas. Desisti de fazer planos, de construir gigantescos castelos de ilusão e lágrimas, desisti de sonhar acordada com finais felizes doces e inverossímeis. E talvez tenha sido bem melhor assim. Quando parei de me preocupar com o que o que faria da minha vida, a vida encarregou-se de escolher o melhor para mim.

E nessa novela de encontros e desencontros, vou conhecendo as pessoas e descobrindo a mim mesma. Vou aprendendo a ter paciência, entendendo que algumas coisas merecem ser construídas paulatinamente, tijolo por tijolo, assentados com a argamassa da convivência e da confiança.

Hoje não mais me desespero se as coisas não saíram exatamente como eu desejava. Aceito, apenas. E espero, pacientemente, o dia em que a vida decidir que é a hora certa de sentir e sorrir.


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